A moça na sala de espera da terapia

Ir ao psicanalista é uma coisa engraçada. Podia falar aqui sobre o ato de admitir que preciso de um e blá blá blá, mas fica para a próxima, tem outra história a ser contada. Nas minhas primeiras sessões tive a sorte de não encontrar ninguém na sala de espera — já ouço a voz de meu psicanalista perguntando: Por que sorte? e isso virando tema de sessão — sim, tive sorte. Estava naquela fase que ainda buscava entender porque minhas pernas e minha cabeça me levaram aquele lugar e que não há vergonha nisso (preciso acreditar nisso e escrever é um bom exercício). Então, me deparar com alguém ali era um choque, uma invasão de privacidade, a exposição de minhas fraquezas e talvez uma grande tempestade em um copo d’água.

Cada semana era uma trilha sonora diferente em uma sala miúda e aconchegante. Ali eu se iniciava meu ritual, aos poucos começava a me despir das tantas máscaras diárias, das amarras e me preparava para bater um papo comigo mesma sendo mediada por um apresentador, tipo talk show, mas ele é milhões de vezes melhor que o Faustão, Angélica e até mesmo que a Marília Gabriela.

Na semana passada, depois de um mês e algumas semanas me deparei com aquele espaço tão íntimo recheado de pessoas, não era mais a mesma sala. Perguntei a ele se não cansava ouvir tanta coisa, ele respondeu prontamente que cada um tinha uma história diferente e que estava tudo bem. Neste dia morri de medo de chorar e sair com a cara inchada na frente de todo mundo. (Essa frase também renderia um bom papo). Não chorei, sabe Deus o motivo, mas fiquei pensando sobre todas aquelas pessoas compartilhando a mesma sala de espera. Cada um ia para um psicólogo diferente, com atuações diferentes, com formas diferentes e vidas diferentes, mas me pergunto se a motivação não era comum. Como não estou na cabeça de ninguém deixei isso para lá e voltei de cara limpa e olhos secos para casa. Mas, desde o fatídico dia, a cada sessão eu ficava rezando para que quando abrisse a primeira porta aquela sala de espera fosse só minha, que a minha melodia tocasse e tudo voltasse a ser como era antes, mas isso não aconteceu e tive que lidar com isso.

Normalmente não há conversa na sala de espera, no máximo um boa tarde educado, uma pergunta sobre wifi e pronto. Mas, hoje tive uma surpresa. Cheguei e tinha uma moça esparramada no sofá, deixei ela a vontade e sentei na outra extremidade, nada novo, demos o famigerado boa tarde e fomos cada uma para seu respectivo celular. Quem me conhece sabe que sou extrovertida e converso até com o baleiro que entra no ônibus, mas nunca me senti a vontade de conversar naquele lugar. Meu celular estava com 6% de bateria e eu esqueci o carregador, fui na manha, olhei para aquela desconhecida que compartilhava silêncio comigo e falei:
- Hey desculpa a cara de pau, mas você tem um carregador para me emprestar?
- Não é cara de pau, mas hoje não trouxe. Sempre ando com porque a gente é dependente né? Mas hoje acabei esquecendo

De repente, iniciou-se uma conversa sobre vício em celular, mas desde já aviso que foi bem qualificada, me perguntei de ela já tinha tido aula de Comunicação e Tecnologia na Facom, mas talvez seja muita prepotência achar que alguém precise de uma aula para um bom papo. Por fim, como toda conversa entre desconhecidos, em algum momento o assunto acabou e nossos celulares voltaram a ser o centro das atenções. Para meu desespero ainda faltavam 20min para as 15h e a bateria caiu para 5%, em breve não teria o que fazer.
Chegando em 4% ela virou e me perguntou: está esperando [insira aqui o nome que você quiser]*?
- Estou sim e você?
- Estou esperando o outro. Você está gostando?

E repentinamente o assunto fluiu, falamos das especificidades de cada profissional mesmo sem entender a fundo o que isso significava (digo pelo menos por mim) ela era Gestalt e eu Psicanálise, compartilhamos experiências datas e sensações. E como se a sala de espera pudesse ser uma mesa de bar, falamos da vida, ela já é formada, mas voltou para a faculdade, eu estou na metade do curso, falamos das coisas típicas da universidade e amenidades. O rapaz, a chamou, ela disse tchau, perguntou meu nome e disse o dela — eu não lembro, mas não seria eu se eu lembrasse — e de repente encontrar alguém na sala de espera da terapia não parecia um bicho de 7 cabeças. Era tão normal quanto a conversa com o baleiro, a tia da cantina e as conversas de buzu. E mais, ela entenderia se eu saísse de cara inchada porque cada um está la para lidar com seus monstros, cada um em seu ritmo e todos compartilhando a mesma sala de espera.

Obs 1: Postar isso aqui só faz sentido para mim porque em tese não to ligando para o que as pessoas pensam.

Obs2: Ninguém lê, estou me enganando um pouco, mas um passo de cada vez.

Obs3: não quis botar o nome de meu psicanalista, não sei se posso. Discutiremos isso na quarta que vem.

Para exercitar a escrita e compartilhar brisas

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