Dentro do ônibus, um zunido sórdido, música gospel saindo de um rádio velho chiando e se misturando com o som arisco do pneu entrando em contato com o asfalto, buzinas, risos altos, um vendedor proferindo falsas palavras, um cheiro de creme de cabelo e perfume barato. Em pé, corpos se batem, se desculpam ou brigam. Tanto faz.

Ao sair, vejo as poças sujas, o paralelepípedo branco marrom, mais música zunindo, 7:30 da manhã um homem comendo feijoada em uma barraca fétida, alguém bate em meu ombro, lembro que tenho que caminhar e chegar até o ponto. Velhos, crianças, estudantes, lavradores e ciganas na passarela, o andar é acompanhado por abordagens estranhas:

— deixe-me ver seu futuro menina bonita, você é linda.

O som surdo continua: alguém cantando, um crente também proferindo falsas palavras, mais vendedores, mais quinquilharia. Um homem encostado no muro, com um espelho em uma mão e uma tesoura na outra cortando os pelos do próprio nariz, como se nada tivesse acontecendo, uma criança brincava na poça d’água e sorria.

A cidade tinha um ritmo pulsante e um cheiro pútrido. Era uma realidade esquizofrênica. Ao chegar bati o ponto e minha surdez ganhou outros sons. 8h passaram e não deixaram memória, um vácuo no tempo.

Os ruídos voltam e entro no ônibus de novo. Agora sãos as buzinas, pessoas cansadas e o suor. De repente vejo o mar e mais um cheiro se mistura, o salgado. 17:30, ainda está claro, mas já vejo putas tristes vendendo seus corpos.

Chego em minha casa vazia, abraço meu cachorro, deito e durmo sabendo exatamente o que acontecerá amanhã.

obs: O texto é velho, mas cidade é a mesma.

Para exercitar a escrita e compartilhar brisas

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