O que aprendi com um pé de galinha

Estava reflexiva esses dias, fiquei pensando quanto tempo eu ficava presa no quarto perdendo tempo com a faculdade. Sim, perdendo tempo. Eu não ouvia mais meu pai contar seus causos de Araguaína, do Maranhão e da época que ele morava na fronteira do Pará. Não ouvia mais minha mãe chegando do trabalho e falando da aventura que é ser professora de geografia em uma escola pública, acredite que rende um bom livro cheio de dramas, aventuras e reviravoltas, e muito menos ouvia meu irmão e seus dramas pré-adolescentes.

Decidi então sair do quarto! Preferi dormir bem mais tarde do que seguir uma rotina certinha e perder as coisas bonitas que tenho em casa.

Eu ouvi coisas lindas, tivemos discussões, debates e demos risadas, mas tem uma coisa que me marcou: hora do almoço, ninguém queria sentar à mesa, algum programa nos levou para a frente da TV. Estava rolando um frango ensopado que só papai sabe fazer e de repente ele olha para o prato de minha mãe:

- Loura, desde quando você gosta de pé? (De galinha, só para deixar claro)
- Desde sempre, só que como você gosta eu deixo para você.
- Mas, mulher eu só comia tudo porque pensava que você não gostava.
- Pois, eu gosto de tudo: pescoço, pé, coração e tudo mais.

Meu pai ficou meio chocado e ela também. Eu caí na risada. Plenos 22 anos de casados e uma coisa pífia como as partes que eles gostam da galinha nunca foram ditas. Ontem em uma noite chuvosa onde vários planos deram errado, sentei numa mesa de bar e vi uma amiga falar que ficou surpresa ao descobrir, depois de 5 anos de relacionamento, que o namorado gostava de Alcione. Contei sobre meus pais, rimos e percebemos como as pequenas descobertas são deliciosas, que o amor tem dessas surpresas e precisamos valorizá-las. Não teria graça se não fosse assim. E só para lembrar, isso não se aprende nos textos da faculdade.

Para exercitar a escrita e compartilhar brisas

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