um bloco de notas cheio e arquivos de textos vazios

Gabrielle Guido
2 min readOct 15, 2020

Eu eu acho bonito juntar palavras e criar sentidos. Palavras também criam imagens ou são imagens. Gosto de frases cheias de pontos. Porque dão tempos extensos demais como se eu tivesse pensando. Não sei usar as vírgulas direito e nem crase. Digo que vou voltar a estudar gramática, mas nunca volto.

Tenho ideias pretensiosamente interessantes. Anoto no bloco de notas, no google keep, no post-it e fica lá. Depois do frisson da "eureca" restam palavras embaralhadas que nunca se tornam nada e se perderam na minha preguiça de mim e procrastinação.

No final das contas a brisa é sobre o tempo. Mesmo dentro de casa, mesmo com o computador aberto, com um celular grudado na mão eu digo que estou sem tempo, digo que tem algo mais importante para fazer. Já não escrevo mais a punho para não usar a tendinite como desculpa, já saio anotando ideias em todos os cantos para não perdê-las, mas uma solução prática para o tempo parece impossível.

Tem pelo menos 4 textos que deveria (na verdade poderia, nada é obrigado) escrever. O que era para ser crônica perdeu o sentido, até porque encontrar "labuta pra acender a vela" em um post-it escrito a 4 meses atrás não ajuda em nada.

Era para eu estar trabalhando agora, mas estou cronometrando o tempo que gasto escrevendo para encaixar na minha agenda. A ideia é parar de criar desculpas. Isso fala sobre uma necessidade absurda de controle. De contar segundos para algo incontável, para algo que um dia é um parto rápido e quase orgástico e que em outros dura uma semana cheia de dores.

Quando escrever é uma possibilidade de trabalho me vejo na obrigação de desenferrujar os dedos e as musculaturas que me ajudam a criar histórias com esse traço que chamam de letra e que se junta para formar um sentido compartilhado.

Achei que podia aproveitar as ideias soltas do bloco de notas, mas elas já prescreveram. Não fazem mais sentido. Não lembro o que eu queria dizer. Não tenho mais vontade de dizer a mesma coisa. Talvez esse seja o problema. Eu tenho que escrever tudo no agora porque tem coisa que passa, que enterra.

Conclusão óbvia de hoje: escreva aqui e agora.

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